Um chamado à revolução emocional contra a ditadura da positividade tóxica.
Um antigo espectro ronda o nosso tempo — o espectro da tristeza.
Não a tristeza que te paralisa;
Não a tristeza domesticada;
A tristeza que te radicaliza;
A tristeza que se recusa à disciplina.
Contra a positividade tóxica – essa discreta cúmplice neoliberal que propaga a um estado constante de espírito positivo.
Contra a alegria compulsória.
Contra a ideia de que a felicidade é um objetivo que pode ser alcançado apenas com força de vontade.
Não.
Não acreditamos em otimismo sem razão.
Acreditamos em corpos cansados,
Em falta de recursos,
Em falta de tempo.
A tristeza não é falha individual.
É herança,
É companheira ancestral,
É resistência.
Recusamos negar a realidade;
Recusamos a invalidação emocional;
Recusamos chamar exploração de resiliência.
Não queremos apagar a tristeza.
Não queremos glamourizar a tristeza.
Queremos politizá-la.
Acolher a própria tristeza,
Se desprender de culpas impostas,
Revelar uma força transformadora.
Ser triste é revolucionário:
o sistema treme diante de quem não se rende ao sorriso obrigatório.
São Paulo, 7 de fevereiro de 2023
*Este texto não salvará ninguém. Nenhuma palavra substitui a luta coletiva. Mas permita-o provocar-lhe um suspiro de alívio e um abraço fraterno entre os entristecidos... já terá valido a pena.